Sites Grátis no Comunidades.net Wordpress, Prestashop, Joomla e Drupal Grátis
ENQUETE
DILMA CONSEGUIRÁ TERMINAR O SEU MANDATO?
SIM
NÃO
Ver Resultados

 

 

JORNAIS DE HOJE


DEMOCRACIA EM QUEDA
DEMOCRACIA EM QUEDA

Democracia em queda livre

Massacre de apoiadores do presidente deposto Mohamed Mursi deixa um rastro de destruição e violência no Egito. A volta da ditadura nunca pareceu uma ameaça tão real

Mariana Queiroz Barboza
 

 


ATAQUE E DEFESA 
Repórteres correm durante ofensiva militar contra acampamento
da Irmandade Muçulmana. Dois jornalistas morreram


Há menos de dois meses, no dia 3 de julho, uma festa levou milhares de egípcios às ruas do Cairo para comemorar a deposição do presidente Mohamed Mursi, da Irmandade Muçulmana, sob um céu decorado com fogos de artifício. A surpreendente celebração do golpe militar, porém, não intimidou os apoiadores do antigo presidente. Na semana passada, diante do aumento dos protestos que pediam o retorno de Mursi ao poder, os militares decidiram agir – e o que se viu foram chocantes cenas de barbárie. Os corpos envolvidos por lençóis manchados de sangue mostravam que o caminho que levaria o Egito à democracia definitivamente não era aquele que o Exército, encabeçado pelo general Abdul Fattah al-Sisi, seguia. O massacre começou na quarta-feira 14, pouco depois do nascer do sol. Primeiro, a ofensiva militar atacou um grupo reunido na Praça al-Nahda, próxima à Universidade do Cairo. A investida resultou em 87 mortos. Depois, a mesquita de Rabia al-Adawiya, no distrito de Nasr City, foi cercada por tropas no solo e no ar. Na ação pereceram 202 pessoas. Tudo transmitido ao vivo pela tevê. Até a sexta-feira 16, o saldo de mortos, segundo o ministro da Saúde, era de 638. Extraoficialmente, dizia-se que a estimativa era tímida. A contagem deve aumentar nos próximos dias.

 


RESISTÊNCIA 
Carro da polícia é empurrado de ponte por manifestantes islamitas no Cairo


A situação forçou o vice-presidente do Egito, Mohamed ElBaradei, premiado com o Nobel da Paz em 2005, a renunciar. “Ficou difícil, para mim, segurar a responsabilidade por decisões com as quais não concordo e cujas consequências eu temo”, declarou. ElBaradei foi muito criticado por ter apoiado a deposição de Mursi e aceitado compor um governo endossado pelos militares, responsáveis por 60 anos de ditadura no país. Depois do golpe, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, condenou o uso da força pelo governo e cancelou exercícios militares conjuntos entre os dois países, aliados históricos, mas não cortou a ajuda financeira anual de US$ 1,3 bilhão. Na sexta-feira 16, o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas fez uma reunião de emergência, em que pediu pela “máxima contenção” entre as partes. O presidente interino Adli Mansour decretou estado de emergência, fechou bancos, interrompeu os serviços de trem e impôs toque de recolher em várias cidades, paralisando a já combalida economia egípcia. A General Motors fechou as operações no país por tempo indeterminado por causa da violência que se espalhou para além da capital, em cidades como Alexandria, Gizé e Suez. Militantes islâmicos bloquearam estradas que circundam Cairo e depredaram igrejas cristãs, prédios do governo e postos de guarda. A situação se agravou quando o ministro do Interior disse que as forças de segurança estavam autorizadas a usar armas letais para se proteger – segundo ele, ao menos, 43 oficiais morreram.

 


O CHEFE 
Abdul Fattah al-Sisi, general das Forças Armadas: o Exército, responsável
por 60 anos de ditadura no Egito, está cada vez mais poderoso


Desde que Mursi foi deposto num contexto de caos econômico e crescente autoritarismo, os membros da Irmandade Muçulmana têm sido perseguidos. O grupo político-religioso, que surgiu em 1928 e demonstrou sua força política ao vencer as eleições presidenciais e legislativas de 2012, atua em diversos extratos sociais e mantém forte influência junto a uma boa parcela da população. Mas, na contramão da via democrática, seus líderes prometeram resistência ao novo governo e convocaram mais protestos, num discurso que enaltece os mártires. “O embate entre o Estado do Egito e o ‘Estado paralelo’ da Irmandade Muçulmana alcançou uma fase existencial em que, para um sobreviver, o outro precisa ir embora, ao menos ideológica e organizacionalmente”, disse Wael Nawara, escritor e ativista egípcio, em artigo ao site Al-Monitor. Nawara argumenta que, desde a queda do ditador Hosni Mubarak, houve vários pequenos acampamentos na Praça Tahrir e em outros pontos do Cairo sem que isso desencadeasse violência. Mas os campos de Rabia al-Adawiya e al-Nahda foram o estopim da briga entre dois Estados que, há 85 anos, tentam governar o mesmo povo, na mesma terra. “A Irmandade chegou a um ponto em que considera esta a sua última batalha, então é vencê-la ou morrer como mártir”, declarou Nawara.

 


VÍTIMAS
Familiares choram diante de corpos enfileirados na mesquita 
de El-Iman, no Cairo. Ao menos, 638 civis foram mortos
 

 

O acirramento da disputa entre os dois lados compromete o restabelecimento do processo democrático, como querem os egípcios que marcharam contra o regime de Mubarak na Primavera Árabe, e joga o país num longo período de escuridão. “Transições democráticas, mesmo nas melhores circunstâncias, são assuntos difíceis e dolorosos”, disse, em relatório, Shadi Hamid, diretor de pesquisa do Instituto Brookings em Doha, no Qatar. “Mas já não faz mais sentido dizer que o Egito está nessa transição.” Segundo o especialista, as Forças Armadas e outros braços do Estado se tornaram instituições explicitamente partidárias, o que só aprofunda o conflito num país extremamente polarizado. Isso justificaria uma guerra permanente contra inimigos internos e externos. “Não há motivo para estar surpreso, porque é assim que um golpe militar se parece”, escreveu Hamid. 

 

DEMOC4

 

 

IstoÉ/Edição VidaNews