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JORNAIS DE HOJE


IDEIAS
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Um abraço em Bangladesh

Quando uma fotografia nos arranca da cômoda posição de espectadores distantes e nos obriga a olhar para ver

ELIANE BRUM

Uma mulher chamada Taslima Akhter esgueirava-se pelos escombros da fábrica de roupas que desabou em Bangladesh, em 24 de abril, quando os viu. Como descrever o que ela, fotógrafa e ativista bengalesa, viu? Taslima registrou, fez uma fotografia que girou o mundo nos últimos dias e se tornou o símbolo do que não pode ser esquecido. E talvez o que se possa dizer é que o que ela viu nos obriga a ver. Ver mesmo. Não como costumamos assistir às imagens das grandes tragédias ou examinar a galeria de fotos de corpos e de rostos distorcidos das vítimas e das faces desesperadas dos familiares, numa solidariedade difusa, mas distante, que nos permite trocar de canal ou mudar de página no minuto seguinte. Ver é mais do que isso. É transpor distâncias geográficas e barreiras culturais e ser lançado para perto, bem perto mesmo. Perto o suficiente para se reconhecer num outro rosto, em outros olhos, ainda que fechados porque mortos. E não poder esquecer porque agora eles estão em nós, tatuados em nossa pele invisível. Isso é ver. E é raro quando acontece.

O que Taslima viu pode se inscrever no DNA da humanidade como aconteceu com a foto da menina correndo nua após seu vilarejo ser atingido por uma bomba de napalm durante a Guerra do Vietnã. O que ela viu e documentou foi um último abraço em Bangladesh.

Talvez não houvesse nada para ser dito depois dessa foto. Talvez essa foto exija um silêncio também de letras. Mas, neste caso, silenciar pode significar esquecer que Bangladesh está bem próximo de nós não apenas de modo subjetivo, mas concreto. Próximo o suficiente para estar sobre a nossa pele – a visível. 

É possível que, no momento em que somos alcançados por esse abraço final, alguns estejam vestindo uma roupa feita por este homem, esta mulher ou por algum dos mais de mil mortos do desabamento, um número que não para de crescer. Ou enfiados numa camiseta, num jeans, num vestido, saia ou blusa feita por alguns dos milhões de bengaleses, a maioria mulheres, que, neste exato instante, cortam e costuram, em prédios insalubres, em jornadas extenuantes, em regime semelhante ao de escravidão, as peças que serão vendidas pelas grandes marcas ocidentais, em vitrines brilhantes e assépticas – as peças que serão compradas também por nós.  

Este homem, esta mulher, que se abraçam num útero de terra, concreto e ferros retorcidos, ganhavam, em média, para trabalhar da manhã à noite, dia após dia, costurando roupas para nós, 77 reais por mês.

A força desse último abraço é o que está além do gesto. É a humanidade resgatada que os arranca não dos escombros, mas dos números, para lembrar o que não fomos capazes de ver – ou não quisemos – quando ainda eram vivos e respiravam e sonhavam. Agora os enxergamos, e eles não apenas nos comovem, mas nos assombram. E é crucial que nos assombrem.

Taslima contou à Time:

- Eu tenho feito muitas perguntas a respeito do casal que morreu abraçado. Tenho tentado desesperadamente, mas ainda não achei nenhuma pista a respeito deles. Eu não sei quem são ou qual relação eles tinham. Passei o dia inteiro do desabamento no local, assistindo aos trabalhadores serem retirados das ruínas. Lembro do olhar aterrorizado dos familiares, eu estava exausta mental e fisicamente. Por volta das 2 horas, encontrei um casal abraçado nos escombros. A parte inferior dos seus corpos estava enterrada sob o concreto. O sangue que saía dos olhos do homem corria como se fosse uma lágrima. Quando os vi, não pude acreditar. Era como se eu os conhecesse, eles pareciam muito próximos a mim. Eu vi quem eles foram em seus últimos momentos, quando, juntos, tentaram salvar um ao outro – salvar sua vidas amadas. Cada vez que eu olho para essa foto, me sinto desconfortável. Ela me assombra. É como se eles estivessem me dizendo: “Nós não somos um número, não somos apenas trabalho e vidas baratas. Nós somos humanos como você. Nossa vida é preciosa como a sua, e nossos sonhos são preciosos também”.

No dia anterior ao desabamento, trabalhadores ouviram barulhos semelhantes ao de explosões e entraram em pânico. Um engenheiro examinou os pilares e, vendo as rachaduras, teria pedido ao proprietário que esvaziasse o prédio de oito andares, que abrigava pelo menos cinco confecções na periferia da capital, Daca. O proprietário, Mohammed Shoel Rana, teria dito: “Isto não é uma rachadura, não é um problema”. Os operários foram obrigados a continuar produzindo e as confecções seguiram funcionando. E nenhuma autoridade pública o impediu de abrir as portas do complexo de fábricas no dia seguinte. Este homem é descrito pela imprensa local como um vilão completo, que construiu o prédio expulsando proprietários de terra e corrompendo autoridades (que queriam ser corrompidas), suspeito também de estar envolvido com o tráfico de drogas e de armas.

Seria fácil encontrar apenas um vilão para culpar. Ou mesmo alguns vilões, que já foram presos pela polícia de Bangladesh. O problema, no mundo globalizado, é que, se seguimos a cadeia de produção e de responsabilidades, ela chega a nós. É indecente quando os líderes das grandes grifes ocidentais se mostram escandalizados com a tragédia, sugerindo que não sabiam que era assim que viviam os trabalhadores na ponta do processo produtivo. É igualmente indecente quando alguns anunciam que deixarão de produzir em Bangladesh. Como se, depois dos enormes lucros obtidos por anos de exploração, simplesmente abandonar a cena sem se comprometer com a melhoria das condições de trabalho, de salário e de existência dos trabalhadores que os serviram – alguns deles com a vida – fosse moralmente defensável.

Só valia – e segue valendo a pena – terceirizar a produção em países como Bangladesh porque o trabalho é barato, já que análogo à escravidão. Bangladesh é o segundo exportador mundial na área têxtil, perdendo apenas para a China, porque a mão de obra não custa quase nada. Um estudo do Institute of Global Labour and Human Rights mostrou que uma mesma camisa, se fosse produzida nos Estados Unidos, custaria US$ 13,22. Em Bangladesh custa US$ 3,72. Nos Estados Unidos, o custo da mão de obra corresponderia a 57% do valor total da camisa. Em Bangladesh, corresponde a 6%. É o trabalho que não vale quase nada e por isso a camisa sai muito mais barata para todos, menos para aqueles que vivem e morrem sem valor. É por essa razão que, como sempre se soube, terceirizar a produção em Bangladesh tornou-se um lucrativo negócio para as grandes marcas internacionais. E só deixará de ser se o custo de ter a imagem associada à escravidão e agora à morte de mais de mil pessoas for maior.

Não há espaço para se iludir com supostas boas intenções e lamentos de ocasião. Para as grandes marcas ocidentais e seus muito bem pagos executivos as vidas humanas não parecem importar. O que importa são as cifras. É aí que entramos nós, os consumidores. Bem menos inocentes do que gostaríamos. Também nós gostamos de comprar roupas e qualquer outro produto barato. E torna-se um pouco difícil acreditar que não tínhamos alguma ideia de como nossas roupas eram – e são – feitas. De que, como diz Taslima, a roupa só é barata porque as vidas de quem a produz são tratadas como baratas – tão baratas que podem morrer soterradas nos escombros da fábrica porque outras vidas baratas as substituirão.

É só com a nossa pressão sistemática e cotidiana – e com uma mudança de comportamento – que essa realidade pode mudar. Desde que deixamos, há muito, de comprar diretamente do produtor, que em muitos casos era o nosso vizinho, consumir tornou-se uma responsabilidade muito maior. Querendo ou não, com mais ou menos consciência, cada um de nós está envolvido na tragédia de Bangladesh. E só nós podemos transformar o que hoje é barato em algo tão caro que ninguém ouse tratar uma vida humana como descartável.

Quando catástrofes criminosas como esta acontecem, há um momento em que a máquina do mundo se abre e podemos vislumbrar o quadro completo. Aquele que na maior parte do tempo permanece oculto. Dificilmente ligamos os pontos entre as fábricas nas quais trabalham pessoas em condições sub-humanas às vitrines iluminadas e sedutoras que exibem sonhos de consumo feitos por quem não pode sonhar. Mais difícil ainda é dar um passo a mais para descobrir que o ponto de chegada desse labirinto somos nós mesmos.

É importante lembrar ainda que não é apenas em Bangladesh ou em outros países asiáticos que isso acontece, mas também no Brasil, como conta Renato Bignami, coordenador do Programa de Erradicação do Trabalho Escravo na Superintendência Regional do Trabalho em São Paulo, numa entrevista ao Blog do Sakamoto. Aqui, são os bolivianos os que mais de uma vez são libertados de situações semelhantes à escravidão. Em 2010, duas crianças bolivianas morreram no incêndio de uma confecção no Brás, em São Paulo. Como disse o cientista político André Singer, em sua coluna na Folha de S. Paulo: “Mais dia menos dia o Brasil terá que escolher o tipo de país que deseja ser. Flexibilizar a CLT, aumentar a terceirização, manter a enorme rotatividade atual no emprego e diminuir os salários pode resolver o problema da balança comercial. Mas, se quiser constituir-se numa sociedade digna, terá que descobrir caminho alternativo para enfrentar as agruras de um capitalismo internacional para lá de selvagem”.

Passado o clamor público, tomadas algumas medidas de aparente impacto pelas grandes corporações, a máquina do mundo volta a se fechar. E nós também preferimos esquecer, porque é mais fácil e mais cômodo comprar sem olhar, sem nos informarmos, sem perturbar ou ser perturbado – mais ainda se for bonito e barato. Aqueles que movem o mundo do alto sempre podem contar com o esquecimento que vem logo depois de uma grande comoção. É como se o espasmo fosse o suficiente para nos apaziguar. Negamos com veemência, mas a verdade é que adoramos nos omitir e tocar nossa vida, por uma razão muito pragmática: porque podemos. Pertencemos à parcela minoritária da humanidade que pode viver sem morrer abraçada nos escombros.

Olhar para ver é uma escolha. Sempre mais difícil, a única digna.

Só a poesia alcança a profundidade da vida impressa na morte. O abraço final em uma fábrica de escravos de Bangladesh me lembrou do sertão severino de João Cabral de Melo Neto. Tão longe, tão perto. As vidas baratas são sempre as mesmas vidas, em qualquer geografia, em qualquer tempo. Aquela fábrica sepultou-os em um útero-túmulo. E lá estão os costureiros de nossas roupas vestidos em seu derradeiro traje de terra, o único que lhes coube.

“Essa cova em que estás, com palmos medida, é a cota menor que tiraste em vida. É de bom tamanho, nem largo nem fundo, é a parte que te cabe deste latifúndio. (...) Será de terra tua derradeira camisa: te veste, como nunca em vida. Será de terra a tua melhor camisa: te veste e ninguém cobiça. (..) Tua roupa melhor será de terra e não de fazenda: não se rasga nem se remenda. Tua roupa melhor e te ficará bem cingida: como roupa feita à medida.”

O abraço final, documentado por Taslima Akhter, nos obriga a enxergar para além dos corpos – e também para além do espetáculo. Não é matéria o que está ali, é o que não está que nos alcança e arrebata antes que possamos escapar. É vida que se imortaliza na morte. Como ela diz, quase podemos escutar as vozes e ouvir os sonhos daqueles dois. Não sabemos (pelo menos não ainda) quem são, mas sabemos que são. Que foram. Não sabemos se eram amantes ou irmãos. Ou apenas colegas de trabalho, companheiros de escravidão. Não sabemos se tentavam salvar um ao outro, ou se compreenderam que não poderiam escapar da morte, e então empreenderam um abraço. Um último gesto humano que os tornou nossos estranhos íntimos.

O próximo gesto humano cabe a nós. Será tardio para eles, em tempo para muitos.

 

Época/Edição VidaNews

 


 

A cara da vagina

A descoberta de um rosto para A Origem do Mundo, obra-prima do pintor Gustave Courbet, não retira o véu sobre a obra. Ao contrário, é a tentativa de colocar sobre ela um véu definitivo

ELIANE BRUM

E cá estamos nós, mais uma vez. De volta às aventuras do quadro mais famoso do pintor Gustave Courbet, A origem do mundo. Não sei se existe outra obra de arte com tanta capacidade de provocar polêmica, mesmo um século e meio depois de ter sido realizada. Para quem não conhece a pintura, ela mostra uma vagina. Ou, segundo uma definição menos cultural e mais anatômica, uma vulva. Ela desponta entre as coxas femininas abertas, coberta de pelos. Há ainda a barriga e um seio. Não há o restante das pernas, não há braços, não há rosto. Pelo menos não havia até a quinta-feira, 7/2, quando a revista francesa Paris Match chegou às bancas. Na capa se anunciava, com grande estardalhaço, que havia sido encontrado “o rosto de A Origem do Mundo” – “a parte de cima da obra-prima de Courbet”. A vagina teria uma cara. E até um nome, uma nacionalidade e uma biografia, já que sua dona seria a irlandesa Joanna Hiffernan, modelo retratada em outras telas de Courbet, amante de outro pintor, Whistler. Cabe a pergunta: por que a vagina precisaria de um rosto?

A Origem do Mundo, a pintura, assim como as palavras “vagina” e “boceta” viveram uma série de percalços no Brasil e no mundo no ano passado. A novidade trazida pela Paris Match neste mês de fevereiro mostra que ainda haverá muitas peripécias. O psicanalista Jacques Lacan (1901-1981), que foi o último dono do quadro antes de a obra ingressar no acervo do Museu D’Orsay, em Paris, costumava dizer: “O sexo da mulher é impossível de representar, dizer e nomear”. E por isso exibia a pintura de Courbet a uma plateia seleta de intelectuais da época, num ritual cheio de suspense. Mais do que exibir, ele a desvelava, na medida em que A Origem do Mundo era ocultada atrás de uma outra pintura.

Primeiro, uma breve retrospectiva dos acontecimentos recentes. Em junho de 2012, escrevi sobre o quadro a partir de um grito que ecoou dentro da minha casa. Este era o título da coluna: “Por que a imagem da vagina provoca horror?”. Se você não a leu, pode ler aqui. Nela, conto a conturbada trajetória da pintura desde que Courbet (1819-1877) a fez, em 1866, e sugiro algumas hipóteses para o impacto tanto da imagem quanto das palavras, ainda hoje, quando corpos femininos nus se movimentam na internet a um clique.

Em setembro, o incômodo, que tanto a imagem quanto as palavras provocam, foi comprovado, mais uma vez, em dois episódios. No primeiro, a Apple censurou a palavra “vagina” . O título do livro de Naomi Wolf, respeitada escritora americana, passou de Vagina, uma nova biografia paraV****a, uma nova biografia. Neste caso, a apresentação do livro feita na livraria virtual resultou numa prova bastante irônica da atualidade da abordagem: “É um impactante novo trabalho que muda radicalmente como pensamos, discutimos e compreendemos a v****a. A autora olha para o passado e nos mostra como a v****a foi considerada sagrada por séculos até ser vista como uma ameaça”.

Na mesma época, a transmissão da palestra de Jorge Coli pelo site da Academia Brasileira de Letras (ABL) foi interrompida. O corte ocorreu no momento em que Coli, respeitado crítico de arte e professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), mostrava uma imagem de A origem do mundo e pronunciava a palavra “boceta”. De novo, uma prova mais do que irônica da pertinência do debate.

A conferência integrava o ciclo “Mutações – O futuro não é mais o que era”, organizado pelo filósofo Adauto Novaes, e discutia “as noções de pornografia, erotismo e sexualidade dentro das artes”. Na sua reflexão, Coli sublinhava “o caráter conservador do moralismo atual e criticava os puritanismos repressivos que oprimem o imaginário, mas não apenas ele”. Censura consumada, os imortais da ABL aprovaram o ato “com louvor”.

Como se vê, 2012 foi um ano difícil para a vagina, seja como palavra, seja como imagem. E agora, logo no início de 2013, a novidade. Segundo a reportagem da Paris Match, apresentada como um “furo internacional”, o rosto de A Origem do Mundo teria sido descoberto por um amante da arte num percurso de romance.

Em janeiro de 2010, um homem identificado apenas como “John” entrou numa lojinha de antiguidades de Paris para se refugiar da chuva. Sobre uma cômoda, o rosto de uma mulher o capturou. No quadro, a “bela lasciva”, como é descrita, parecia ter sido imortalizada depois do ato de amor. E, de imediato, ele a quis. Pechinchou um pouco, pagou pela pintura não assinada o que tinha no momento e a encaixou debaixo do braço quando a chuva amainou. Ao chegar em casa, descobriu que aquela cabeça parecia ter sido cortada. E passou a buscar a origem e o restante do corpo da mulher como um detetive de histórias de mistério.

Depois de dois anos de obsessão e pesquisas, “John” chegou à conclusão de que o rosto feminino era a outra parte de A Origem do Mundo. Levou sua investigação até o Instituto Gustave Courbet. Depois de testes e análises, Jean-Jacques Fernier, considerado um dos grandes especialistas na obra do pintor, afirmou que a cabeça corresponde mesmo à pessoa.

Ao juntá-las, num quadro só, a pintura seria, segundo Fernier, um ângulo muito mais ousado de outro nu feminino de Courbet, chamado A Mulher e o Periquito, exibido no Metropolitan, de Nova York (para quem entende francês, há um vídeo aqui). Nesse caso, A Origem do Mundo se revelaria um quadro muito maior e faltaria ainda encontrar outras partes, como o próprio periquito em questão. No jornal Le Monde, especialistas levantaram dúvidas pertinentes sobre a veracidade da descoberta. O Museu D’Orsay, onde a pintura é exibida desde 1995, divulgou uma nota chamando a conclusão de “fantasiosa”. E dizendo: “A Origem do Mundo não perdeu sua cabeça”.

É nesse ponto que estamos. Mas o que, afinal, essa cabeça significa? Caso a hipótese se mostre verdadeira, o que ainda é bastante duvidoso, ninguém pode negar que a história seja quase irresistível. A Paris Match não demonstrou nenhum pudor com as palavras, ao exagerar no tom: “A Origem do Mundo tem enfim um rosto. Um amante da arte descobriu a outra parte do quadro mais audacioso da história da pintura. A parte de baixo causou escândalo, a de cima provocará uma revolução”.  

Por enquanto, a história toda já se mostrou um excelente negócio, mesmo que a cabeça continue sem corpo. A reportagem ganhou repercussão internacional e foi replicada no mundo todo. O rosto, que custou ao seu dono 1.400 euros (cerca de R$ 3.700) em 2010, pode deixá-lo milionário, caso seja aceito como a cabeça de A Origem do Mundo, multiplicando seu valor para 40 milhões de euros (R$ 105 milhões), segundo estimativa da revista. Já vale agora muito mais do que quando era apenas mais um quadro num antiquário, entre móveis antigos e bibelôs de avós.  

Mas, voltando à questão que move esta coluna, por que A Origem do Mundo precisaria de um rosto? Entre as várias polêmicas que o quadro gerou ao longo de século e meio, uma delas era a acusação de que ao pintar uma vagina sem rosto, braços ou pernas, Courbet estaria esvaziando a história da mulher, reduzindo-a a um órgão sexual. Ela nem teria identidade, nem movimento, muito menos protagonismo. Seria apenas um objeto inerte, à mercê do desejo do homem.

Com a descoberta do rosto perdido, pelo menos esse “problema” estaria resolvido. Agora, a mulher teria não só cara, como até nome e biografia. Juntos, estes separados no nascimento apaziguariam corações e mentes. A vagina não seria mais o centro perturbador – apenas parte, fragmento. O quadro de Courbet se tornaria apenas um nu muito ousado. Jean-Jacques Fernier, o especialista que avalizou a cabeça, chegou a lamentar que o rosto elimina o mistério e o simbolismo, a possibilidade que cada um tinha até então de imaginar o restante da mulher, completar a imagem a partir de suas experiências e fantasias.

Segundo a revista, “John”, o anônimo “amante da arte” que descobriu o rosto, sonha com expor as duas partes no Museu D’Orsay. Assim, de certo modo, o quadro estaria “inteiro” pela primeira vez. Mas o que é “inteiro”, valeria a pena perguntar? Ainda que aceitemos que o pintor também tenha feito um rosto, por alguma boa razão Courbet decidiu que ele seria uma outra inteireza. A Origem do Mundo existe inclusive para além de seu criador. Uma obra de arte é também quem a fez, o que fizeram dela ao longo de sua trajetória e o que é para cada um. Não existe uma essência a ser resgatada. No caso de A Origem do Mundo, ao supor pedaços e tentar juntá-los é que se rompe a integridade da obra.

Numa das charges sobre o episódio, um casal discute a “descoberta” diante do quadro do rosto de A Origem do Mundo. Em seguida, estão diante da Mona Lisa. A mulher percebe que o marido está pensando sobre a parte que, por dedução lógica, estaria faltando na enigmática Gioconda. “O que você está pensando?”, intima ela. E ele, todo aflito: “Nada! Juro!”.

É importante lembrar que, ao longo de sua turbulenta história, A Origem do Mundo sempre foi coberta por um véu. De tecido, como na casa de seu primeiro dono, o diplomata turco Khalil-Bey, que a escondia atrás de uma cortina verde num banheiro. Atrás de um outro quadro, como preferiu seu último dono, o psicanalista Lacan, ao instalá-la em sua casa de campo. Apenas a partir de 1995 a pintura passou a ser exposta sem véu algum no Museu D’Orsay.

Ao anunciar a “descoberta”, a reportagem da Paris Match afirmou: “Dois anos de pesquisa nos permitem retirar o véu e descobrir um enigma que tem apaixonado o mundo da arte e o grande público desde a origem do quadro”. Mas o rosto da mulher nunca foi o enigma. Nem me parece que a possibilidade de imaginá-lo seja o ganho ao se manter o mistério. O enigma é de outra ordem – e está em lugar diverso.

É a capacidade de representar o enigma que tornou esse quadro tão polêmico, na medida em que ele não representa o irrepresentável – o sexo da mulher. O que ele representa é justamente o enigma. Esta é a sua transgressão. Esta é a razão de provocar um incômodo que atravessa o tempo.

Se há algo que falta, não me parece que alguma vez tenha sido o rosto da mulher, os braços, as pernas. Se há algo perdido, não é a cabeça. O que está perdido – ou o que falta – não pode ser achado. Ou talvez o que falta seja preenchido pelo olhar de quem olha apenas no instante fugaz em que a pintura se torna também o olhar de quem a vê.

A “descoberta” de um rosto, ainda que se mostre verdadeira, não significa a retirada do véu, como se pretende. É exatamente o oposto. É mais uma tentativa de colocar um véu sobre A Origem do Mundo. Apenas que, desta vez, é uma tentativa mais perigosa, porque se pretende um véu definitivo. Por paradoxal que possa parecer, este rosto é não “uma revolução”, como quer a Paris Match, mas apenas mais um ataque de um moralismo conservador contra “a obra mais audaciosa da história da pintura”.

O rosto é o véu que jamais poderá ser arrancado. 

 

Época/Edição VidaNews